Segundo o Ministério da
Saúde, o câncer de mama é um dos desafios no cenário atual Brasileiro porque —
exceto os tumores de pele não melanomas — é o que mais acomete as mulheres no
país. Os dados estatísticos demonstram que as estimativas de incidência de
câncer de mama para o ano de 2019 são de 59.700 novos casos, o que representa
cerca de 29,5% dos cânceres em mulheres (INCA, 2019).
Em contrapartida ao
panorama supracitado, atualmente, a velocidade do diagnóstico, o tratamento
local e o tratamento sistêmico para o câncer de mama estão sendo aprimorados de
forma mais dinâmica, em razão de um melhor conhecimento da história natural da
doença e das bases moleculares da patologia. Essa é uma excelente notícia, haja
vista que esses aprimoramentos envolvem, também, planejamentos estratégicos de
prevenção como, os cuidados específicos com a saúde e do controle do câncer de
mama por meio da detecção precoce, a qual tem sido e é fundamental, pois quanto
mais cedo um tumor invasivo é detectado melhor o seu tratamento e maior a
probabilidade de cura.
Por outro lado, importa
llembrar que a experiência com o câncer de mama é um fenômeno multidimensional
que envolve fatores físicos, psicológicos, sociais e culturais. Portanto, os
profissionais de saúde devem direcionar atenção, igualmente, aos impactos
psicológicos que o diagnóstico e o tratamento tem para a qualidade de vida de
uma mulher que irá submeter-se a procedimentos cujo resultados, os efeitos
colaterais e a alta toxicidade encerra complicações que impactam diretamente a
sua subjetividade, alcançando áreas importantes da sua vida como a que iremos
tratar nesse artigo: autoimagem e sexualidade.
Os impactos
psicológicos relacionados ao tratamento são inevitáveis, contudo, ainda,
bastante negligenciados pelo cuidado em saúde, sobretudo aqueles relacionados à
sexualidade. E esses impactos, entre outras causas, são resultados dos danos
físicos de tratamentos como cirurgias radicais (mastectomia com ou sem
reconstrução imediata) ou conservadoras (quadrantectomia), assim como os
efeitos colaterais de quimioterapias, radioterapias, hormônios, medicamentos e
etc.
Por isso mesmo,
destaca-se a importância de se direcionar atenção aos aspectos psicológicos,
porquanto seus efeitos podem ser duradouros e se estenderem por muitos anos.
Pois apesar dos estudos relatarem altos níveis de qualidade de vida no início
do período pós-tratamento do câncer de mama, tantos outros estudos corroboram
demonstrando que as consequências físicas e psicológicas podem persistir,
relativamente, por um tempo, mesmo após um tratamento bem sucedido, dentre as
quais aparecem com destaque as dificuldades sexuais com parceiros ou não, por
questões relacionadas a autoimagem/autoestima.
A sexualidade da mulher
fica comprometida em função do tratamento e, também, por ser esse um conceito
que abrange aspectos biopsicossociais e culturais cuja construção simbólica em
torno do corpo feminino influencia a percepção da autoimagem dela. Para essa
análise, é inevitável considerar que a preocupação contemporânea com a
aparência afeta fortemente as mulheres. E ao se tratar das mamas, as quais
simbolicamente tem uma construção cultural fortíssima de feminilidade,
sexualidade e beleza, entramos num paradigma de crenças e padrões
comportamentais que sem dúvidas interferem diretamente na sua sexualidade.
Os efeitos da doença e
do tratamento vão desde alterações nas sensações físicas — mudanças na
lubrificação vaginal, na redução da excitação sexual, dispaurenia (dor na
relação sexual) e anorgasmia (inibição recorrente ou persistente do orgasmo) —
até alterações da autoimagem por consequências de uma mastectomia (excisão ou
remoção total das mamas), por exemplo.
Por isso, os estudos
têm demonstrado o relato de mulheres sobre esses desconfortos incidindo em
diminuição na frequência das relações sexuais com seus parceiros, inapetência
sexual, dor durante as relações e dificuldades para obter orgasmos, assim como
vergonha do próprio corpo frente às possibilidades de exposição tanto com o
parceiro quanto em meio social, por falta de aceitação a nova condição física.
Em termos de
autoimagem, a cirurgia pode ser percebida como a mutilação daquilo que é
culturalmente visto como simbólico de beleza. Como se de fato a beleza e seu
atrativo sexual estivesse meramente ligados àquele órgão. Esse é um dos
aspectos importantes que impactam a autoestima dessas mulheres. Os estudos vêm
demonstrando que em decorrência da alteração na percepção do próprio corpo as
mulheres mastectomizadas sentem uma grande insatisfação e não-aceitação da
perda da mama, o que gera nelas sentimentos de autodepreciação e de
inferioridade sucumbindo em sentimento de exclusão sexual e incapacidade de
perceberem-se belas e desejáveis.
A sexualidade é um tema
tabu em nossa sociedade e não seria diferente no cuidado médico a essas
pacientes, cuja comunicação desses assuntos é ainda insipiente, razão pelo qual
o acompanhamento de um psicólogo é indispensável na oferta de uma escuta
qualificada em acolher as dimensões subjetivas, gerar intervenções, abordar as
vivência da sexualidade após a mastectomia e a qualidade do relacionamento
afetivo-sexual da mulher durante e após o tratamento do câncer de mama, para a
ressignificação da vida, da autoestima e da auto aceitação.
É possível resgatar e
fortalecer características positivas como forças de caráter e virtudes
individuais e gerar equilíbrio consigo, com seu corpo, mesmo atravessando
momentos tão difíceis. Sem dúvidas, são demandas urgentes para que se possa
obter uma otimização dos recursos empregados no processo de reabilitação da
vida afetivo-sexual dessas mulheres.
siga @leacy_almeida
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